quarta-feira, 9 de maio de 2012

Da esquerda à direita, Espanha cobra uma 'política europeia' de fato



A vitória de François Hollande na França, defensor de um crescimento integrado para o continente, pode concretizar um discurso que se mostra cada dia mais forte entre pensadores espanhóis de distintos matizes ideológicos: a moeda única precisa ser acompanhada de uma política europeia. "A Comissão Europeia foi posta de lado. Tanto que a posição oficial aguardada não é a do José Manuel Barroso (presidente da comissão), mas sim de Angela Merkel”, diz Antonio Baylos, professor de Direito do Trabalho.

Madri - Depois da exposição internacional das dificuldades financeiras da Grécia, em 2010, vários países europeus passaram a sofrer mais fortemente os efeitos da crise econômica. Os governos contiveram despesas, houve piora na qualidade de vida e aumento do desemprego.

A população reagiu nas urnas, elegendo governos com matizes ideológicas opostas àqueles que não souberam criar alternativas neste cenário adverso. Levantamento publicado pelo jornal El País na terça-feira mostra que, em apenas duas temporadas, a situação deixou o poder em 14 nações: Reino Unido, Hungria, Irlanda, Finlândia, Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Eslovênia, Romênia, Eslováquia, Dinamarca, Holanda e França.

Uma análise do mapa do poder no continente revela que, na maioria dos casos, ganharam as eleições partidos de direita, que logo adotaram o receituário de cortes nos gastos públicos. A crise, entretanto, continua. O remédio de gestores de coalizões conservadoras não deu resultado e, desde o final do ano passado, a esquerda está vencendo eleições, como a do socialista francês François Hollande no domingo.

Em meio a um clima de niilismo e falta de esperança, com a sucessão de números negativos na produção e na criação de empregos, direita e esquerda são pouco acreditadas como solução alternativa. A saída passa por uma política, de fato, europeia, como defendeu Hollande em seu discurso de posse, tese que começa a ganhar espaço na Espanha, à esquerda e à direita.

“Há uma crise do estado-nação no continente. A política ainda não é global, o capitalismo é. A cidadania europeia está só começando. Enquanto isso, há um assalto ao estado de bem-estar social para salvar os bancos”, aponta um dos pensadores da esquerda espanhola, o vice-presdiente da Fundación Alternativas, Nicolás Sartorius.

Para ele, há uma interferência na democracia e essa é uma das razões da crise de representatividade por que passa a Europa. “Quando o cidadão que paga impostos é o credor, o Estado é social. Mas agora depende do capital financeiro, que manda e quer o seu dinheiro de volta”, observa Sartorius.

“Voltamos ao Estado liberal. Os governos estão mais preocupados com o risco país do que com o desemprego. Essa política de cortes ameaça a União Europeia e põe o euro em risco. Para sair disso, precisamos que a UE seja, de fato, um espaço democrático, em que se faça política. A economia está mandando na política. É preciso ter um poder que possa se contrapor ao econômico, a esquerda deve trabalhar pela política, por governos democráticos que, junto com os cidadãos, definam as coordenadas”, sustenta.

O professor catedrático de Direito do Trabalho da Universidade Castilha La Mancha, Antonio Baylos, avalia que a crise de representação na Europa vem de mais tempo, mas que os problemas econômicos evidenciaram uma deslegitimação da política, muito grave.

“O espaço político não decide, mas quem está fora da constituição do poder público sim. Depois da crise grega de 2010, o problema aparece como um fato imodificável, inevitável, em que só cabe aos estados aceitar, aderir aos cortes. Qualquer tipo de participação cidadã é posta de lado, caso da Grécia, em que George Papandreou queria um referendo, mas não conseguiu”, lembra Baylos.

Para o acadêmico, a dimensão política que não fala só do capital, mas que trata também do social, sofreu um golpe. E a situação fica ainda mais difícil porque isso é intensificado na zona do euro, onde houve uma “nacionalização da política”.

“Prevalecem os interesses nacionais das maiores economias, quem determina os rumos são a Alemanha e a França. E há uma política monetária em que os estados menores são tratados com rigor, a eles são impostas medidas, inclusive destituindo governos e colocando em seu lugar tecnocratas. Só se fala no Banco Central Europeu. A Comissão Europeia foi posta de lado. Tanto que a posição oficial aguardada não é a do José Manuel Barroso (presidente da comissão), mas sim da chanceler alemã Angela Merkel”, observa Baylos.

Até mesmo vozes da direita espanhola cobram uma política europeia de fato. Em recente palestra na Real Academia de Ciências Morais e Políticas, o ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel García Margallo, sustentou que a internacionalização da economia exige também uma política global.

“A falta de um governo único, de uma política econômica integrada é o pecado original da União Europeia. A partir do euro, foi estabelecida uma moeda única para países com interesses diferentes e se dá prioridade aos interesses dos países centrais. Sem integração política, um problema em uma país como a Grécia, que representa menos de 2% do PIB da União Europeia, é capaz de abalar toda a zona do euro.”

Ou seja, até o integrante do governo conservador de Mariano Rajoy não vê saída longe da política e uma solução conjunta para o continente. Resta saber se este entendimento vai se sobrepor às diferenças ideológicas. 

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