terça-feira, 19 de julho de 2011

FABULAZINHA DE QUINTAL


 
Galinhas e galinhos garnisés
fizeram um pacto: doravante
viveriam separados,
cada qual a seu modo.

Elas poriam ainda os ovinhos,
mas ficariam livres das esporas
que eles, vez ou outra,
cravavam nas suas costas.

Eles, por sua vez, andariam
por aí e, entre si, teceriam
manhãs e amanhãs
com seu canto afinado.

Com o tempo, as galinhas
foram perdendo, por pura
desnecessidade, o velho costume
de pôr ovinhos diários.
Além de tudo, a cada inverno
sentiam-se mais raras.

Os galinhos, coitados,
também foram rareando
e já não conseguiam ouvir
o canto de outros galinhos.
Que desânimo triste:
estavam a cantar sozinhos!

Chegou um dia, enfim,
em que pareceu tudo acabado.
Sobraram apenas dois,
um de cada lado.

Olharam-se, então, nos olhos
e viram, lá no fundo,
o outro dentro de si.
E era o que precisavam.

Se a vida permitisse,
fariam um novo pacto:
o de buscar, um no outro,
a parte que os fizesse
iguais para sempre,
desiguais quando juntos.

Alcides Buss

www.alcidesbuss.com

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